Quando a Dra. Helena Campiglia me pediu para escrever um prefá- cio para seu segundo livro de Medicina Tradicional Chinesa, fiquei perplexo em aceitar porque, à primeira vista, a distância no tempo e no espaço entre nós dois é muito grande. A Dra. Helena é médica, situando-se dentro de uma ancestral tradição da Medicina Chinesa; eu sou psicoterapeuta da escola de Psicologia Analítica, ciência e prática ainda tão recente, nascida dentro de um contexto histórico-cultural bem diferente. Porém, ao ler o manuscrito, fiquei agradavelmente surpreso em constatar o profundo sentido de alma de nossa amiga médica, como também em perceber o quanto a velha Medicina Chinesa é rica em Psicologia. Uma verdadeira Medicina é, por natureza, sempre psicossomática e uma verdadeira médica é, também, sempre uma psicóloga. Se a alma é vista como a interioridade do corpo e o corpo como a exterioridade da alma, os fatos da observação empírica de um exame médico são considerados tanto em sua manifestação exterior quanto na interior. Os fatos, em sua extensão, passam a ser mais que eles mesmos: são também símbolos do mundo interior, reveladores de uma pluralidade de sentidos (e de não sentido), e sempre parte de um todo. Nesta perspectiva, os fatos falam por si mesmos. Para quem sabe escutá-los, são gritos da alma inscritos na profundeza do corpo. Quer seja na velha Medicina ou na jovem Psicologia, considera-se a doença como uma tentativa infeliz e habitualmente malsucedida de restabelecer o equilíbrio, a ordem e a saúde no organismo como um todo. Levar a sério a lei dos opostos conduz-nos, à maneira dos antigos médicos chineses, a considerar o poder curativo inerente à própria doença. Por isso, não podemos simplesmente querer eliminar as doenças que nos afligem, mas, ao contrário, com muita atenção, considerá-las com cuidado e respeito, pois estas têm muito a nos ensinar.